
Ao longo das últimas semanas tenho sido frequentemente questionado sobre o Hospital de São Camilo.
“Então a Misericórdia vendeu o seu Hospital ao Hospital Particular?” Esta é, talvez, a questão que mais frequentemente me têm colocado. Isto quando a colocam, porque já me aconteceu ser confrontado com o anúncio formal e solene das mais variadas “verdades” absolutas sobre os últimos desenvolvimentos da Saúde portimonense.
A determinado ponto decidi, já que o Director do Jornal de Portimão permite que as minhas crónicas não tenham mote obrigatório, usar o espaço deste número para alguns esclarecimentos.
Tenho a sorte, infelizmente cada vez mais rara, de trabalhar no que gosto, onde gosto, com quem gosto. Chame-se Hospital Distrital de Portimão, Hospital da Misericórdia de Portimão ou Hospital de São Camilo, aquele é o meu Hospital.
A enfermaria da Unidade de Cuidados Continuados de Média Duração da Santa Casa da Misericórdia é, basicamente, a mesma ocupada em 1986 pelo Serviço de Medicina, de que era Director o Dr. João Moleiro (meu primeiro Director e referência fundamental enquanto Médico). A Unidade de Convalescença ocupa o espaço da antiga Maternidade (dirigida então pelo meu saudoso Amigo Dr. António Rocha da Silveira). O internamento do Hospital de São Camilo ocupa o antigo Serviço de Cirurgia (onde eu fiz o meu treino cirúrgico no Internato Geral, dirigido pelo Dr. José Dias ainda em plena actividade médica e… politica). E para exemplo chega da honra e da responsabilidade que constitui ocupar a Direcção Clínica das Unidades de Cuidados Continuados da Misericórdia e do Hospital de São Camilo.
Em boa hora, o ex-Provedor José Francisco Serralha (a quem Portimão muito deve) e a sua equipa decidiram reabilitar o Hospital da Misericórdia de Portimão (e é bom relembrar que aquele já era em 1973, antes de ser nacionalizado e denominado Hospital Distrital, o Hospital da Misericórdia).
Se hoje existe um Parque de Saúde da Misericórdia de Portimão, se existem duas Unidades de Cuidados Continuados com 45 doentes internados, se existe um Hospital de São Camilo com internamento, bloco operatório, consulta externa, se existe um Laboratório de Análises Clínicas, se existe uma Capela, se existe todo um conjunto de equipamentos e serviços de apoio, tudo se deve à Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Portimão personificada por José Francisco Serralha e José Manuel Correia, ex e actual Provedores.
Recuperado o edifício, equipado, posto em funcionamento ao serviço da população, o poder politico não soube ou não quis estar à altura das promessas que fez e que motivaram avultados investimentos, facto que, associado a alguns erros próprios (da Irmandade de que não me excluo…), conduziu a que o Hospital da Misericórdia ficasse demasiado dependente dos Cuidados Continuados no seu funcionamento e financiamento, inviabilizando o desenvolvimento de um verdadeiro Hospital digno desse nome, nas suas múltiplas componentes técnicas que não na qualidade e humanidade dos cuidados prestados.
Concretizar, na sua plenitude, a obra iniciada por José Francisco Serralha passava por conseguir que o Parque de Saúde incluísse um Hospital de qualidade inquestionável, com respostas variadas. Tal desiderato só seria alcançado através da concretização de uma parceria com uma Instituição que detivesse o know-how e os recursos técnicos e humanos, que conhecesse e respeitasse as especificidades da Misericórdia e que fosse conhecedora da Saúde no Algarve. Era o caso do Hospital Particular do Algarve e do seu Presidente, Dr. João Bacalhau.
Após sucessivas discussões e autorizações da Assembleia da Santa Casa e do Senhor Bispo do Algarve, teve início em Agosto uma parceria com o Hospital Particular do Algarve que, em termos muito simplistas, permitiu que o Hospital de São Camilo substituísse algumas das funções do Hospital da Misericórdia, acrescentando-lhe ainda um conjunto de Especialidades, serviços e acordos com subsistemas e seguradoras que vêm beneficiar um enorme conjunto de cidadãos que até então não tinham as respostas pretendidas. Por outro lado, a Santa Casa da Misericórdia de Portimão mantém as suas Unidades de Cuidados Continuados, de que foi pioneira a nível nacional, que constituem uma referencia como se comprova pelo facto de integrar o Conselho de Gestão do Grupo Misericórdias Saúde e por ser a Misericórdia “recordista” de trabalhos apresentados nas Jornadas de Cuidados Continuados das Misericórdias Portuguesas, importante reunião científica que reúne várias centenas de profissionais e conta com a presença do Primeiro-Ministro e da Ministra da Saúde.
Contra os arautos da desgraça, estamos no bom caminho