
Publicado na edição de Novembro de 2008 da Revista Algarve Mais
Hesitei entre escrever sobre a depressão colectiva que a crise financeira originou ou, pelo contrário, aligeirar esta crónica e falar de coisas mais alegres. Pensei, dando ouvidos à sabedoria popular, que tristezas não pagam dívidas. E senti-me tentado a ir por esse caminho. Porém a realidade nua e crua é que o Mundo está endividado. Todos devem a todos. Então é bom que uma certa tristeza invada cada um de nós, mas principalmente os donos do mundo. Os tempos não estão fáceis, a incerteza domina a vida de pessoas, empresas, nações. Sou um optimista, estou seguro que melhores dias virão mas, até lá, é fundamental reflectir sobre as causas próximas e longínquas desta crise. Atingir esses dias melhores passa, em primeiro lugar, por não aligeirar as responsabilidades colectivas e individuais.
Portugal é um excelente exemplo da fuga para a frente perante as dificuldades. Para não recuar mais no tempo, os Portugueses viveram a ilusão colectiva de que o regicídio e a implantação da República trariam a felicidade. Perante o falhanço da Primeira República, caíram nos braços do Estado Novo e depois acreditaram que a cadeira que tirou o Poder a Salazar lhes traria, com Marcelo Caetano, a Democracia. Com Marcelo rendido no Largo do Carmo e Tomás a caminho do exílio, sonharam com os amanhãs que cantam, prometidos pela aliança Povo-MFA. Depois “tornamo-nos” europeus, quisemos ver Portugal na CEE e o famoso povo que “não se governa nem se deixa governar” quis crer que de Bruxelas vinha a salvação.
Fomos o bom aluno, estivemos “quase” no pelotão da frente. Faltou o “quase”… Com Guterres descobrimos o oásis, para acabarmos atolados no pântano. Com Durão voltamos à primeira linha europeia. Na verdade, Durão foi para a Europa… os Portugueses ficaram entregues a trapalhadas, conspirações, moedas boas e más e dissoluções. Feita a vontade de quem quis ver Santana a andar por aí, entregamo-nos às promessas de Sócrates: criação de emprego, crescimento económico, subida dos salários reais. E assim, década após década, continuamos numa letargia colectiva, à espera que alguém ou algo providencial resolva os nossos problemas, embalados por sucessivos (e cada vez mais refinados) vendedores de sonhos.
A crise financeira, que agora nos atingiu, teve as suas origens numa decisão politica do governo Clinton. Ao facilitar, de forma certamente bem intencionada do ponto de vista politico, os empréstimos para habitação a minorias desfavorecidas e incapazes de obter financiamento para essa aquisição pelos critérios bancários habituais, causou um fenómeno que arrastou famílias, uma parcela do sector imobiliário e boa parte da banca para a bancarrota.
Tenho lido e ouvido que este fenómeno do crédito subprime não atingiu Portugal. Entendo exactamente o contrário, o “crédito subprime” em Portugal atingiu o sector da habitação, mas também do crédito automóvel e do crédito pessoal. Não por decisão politica, mas com a complacência e o silêncio dos políticos que nos governam e governaram. Na verdade, bastava estar atento às campanhas publicitárias da banca, de outras instituições financeiras, do sector do comércio automóvel ou dos electrodomésticos para nos apercebermos das enormes “facilidades” que a todos nós eram concedidas. Quem não recebeu na caixa do correio a oferta de um (ou vários) fabuloso cartão de crédito? Quem não foi tentado a tirar as “férias de sonho” por conta de uma empresa que nos emprestava o dinheiro que nos faltava? Quantos não quiseram comprar um plasma ou um lcd para ver o Europeu ou os Jogos Olímpicos, deitando mão das simpáticas campanhas lançadas a pensar no nosso bem-estar?
Talvez a palavra seja pesada, mas vivemos os dias da agiotagem institucionalizada. Adiantam-nos um, dois ou três vencimentos. Oferecem-nos tudo através de uma voz simpática, mas muito apressada, acompanhada de um texto em letras muito pequeninas que lembra o juro a pagar por essa “amizade”.
Nos últimos anos têm-se sucedido e aumentado os casos de incumprimento do pagamento de empréstimos, as associações de defesa do consumidor têm alertado as autoridades e tentado auxiliar as famílias a reorganizar as suas finanças. Perante este estado de coisas que fez o Governo? Fechou os olhos e tapou os ouvidos, como se nada tivesse a ver com a grave crise que se vinha abatendo sobre famílias e empresas. Continuou a permitir descaradamente os empréstimos subprime encapotados, a publicidade enganosa, manteve a elevada carga fiscal, conduziu uma politica salarial caracterizada por aumentos inferiores à inflação real, falhou na criação de emprego e permitiu o aumento dos fenómenos de exclusão social e ignorou um fenómeno que quem trabalha nas IPSS bem conhece, a pobreza envergonhada e escondida. Este e outros Governos tomam agora medidas que visam apenas tratar sintomas, quando era necessário ter a coragem de avançar com profundas mudanças no próprio papel do Estado.
Dizem também muitos comentadores que esta crise prenuncia o fim do liberalismo. Ouvi alguns comentários sarcásticos relativos a uma frase muito utilizada pelos sectores de centro direita : “menos Estado, melhor Estado”. Para alguns teóricos é a vez do Estado crescer. Para mim esta crise só vem reforçar o sentido daquela frase. Menos Estado prestador de serviços mas mais Estado, muito mais Estado, a regular e a fiscalizar. Não precisamos de um Estado anafado, sentado numa poltrona, a querer fazer (mal) aquilo que outros podem fazer melhor e com menos custos. Exigimos um Estado mais ágil e mais interventivo, que adopte atitudes de prevenção e de correcção atempada das doenças da sociedade e do tecido económico.
Aos Portugueses compete-lhes acreditar mais em si próprios e menos em salvadores da Pátria. Exigir mais da classe politica, principalmente mais rigor e verdade, e fazer alguns dos “ricos” políticos que nos têm governado pagar a crise.