UMA REDE DE CUMPLICIDADES

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Publicado na Revista Algarve Mais, Dezembro 2008

A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados envolve milhares de colaboradores, na coordenação, nos hospitais, nas unidades de internamento ou no apoio domiciliário. Há dois anos, alguns estavam já a prestar cuidados de saúde, outros a trabalhar na área da solidariedade social, nas Misericórdias e IPSS, muitos ainda a estudar. Tínhamos histórias e objectivos diversos na vida. Estou convicto que uma boa parte de nós desejava, já nessa altura, ver desenhada e construída uma rede de cuidados e de afectos dirigida aos doentes idosos, aos dependentes, aos que careciam de reabilitação, cuidados médicos, higiene, conforto e carinho.

Alguns tinham já passado pelo exercício de funções no poder central, nos organismos desconcentrados ou no poder local. Tinham colaborado e trabalhado em projectos da responsabilidade dos ex-ministros Maria de Belém ou Luís Filipe Pereira, por exemplo. E os que por aí passaram ficaram a querer mais. Entre muitos outros, foi o meu caso. Acompanhei de perto, primeiro enquanto membro do Conselho de Administração da ARS Algarve e depois enquanto Director Clínico da Santa Casa da Misericórdia de Portimão, o arranque dos acordos celebrados entre a União das Misericórdias e o Ministério da Saúde (no período do Governo PSD/CDS, sob o impulso do Dr. Luís Filipe Pereira).

Outros tinham já dado o melhor de si, nas Misericórdias e outras IPSS, em projectos embrionários que assegurassem uma continuidade de cuidados. E também estes ficaram a querer mais.

A criação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, em Março de 2006, permitiu-nos começar a sentir saciada essa enorme vontade de querer mais.
A Rede, criada num acto legislativo, nasceu para as pessoas e tem sido construída pelas pessoas. Permito-me assim uma breve nota pessoal. Tenho a felicidade de pertencer ao grupo dos prestadores, nos seus mais diversos níveis. No dia-a-dia enquanto médico, membro de uma equipa multidisciplinar, em contacto directo com os nossos utentes. Enquanto Director de Unidades de Cuidados Continuados, participando na resolução de problemas e no diálogo com as Equipas de Coordenação. No exercício das funções de Vice-Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Portimão e de membro do Conselho de Gestão do Grupo Misericórdias Saúde, tendo a responsabilidade de gerir, propor e discutir mudanças, de apoiar ou criticar aspectos pontuais de funcionamento da nossa Rede.

Esta Rede foi construída tendo por base uma filosofia própria de prestação de cuidados de continuidade e de proximidade, visando a reabilitação e recuperação funcional e social dos seus utentes. Com esta base, foi fácil que as Misericórdias aderissem de forma tão entusiástica. Basta lembrar uma das 14 Obras das Misericórdias: «cuidar dos enfermos». É isso que muitos fazem diariamente, coisa bem diversa da visão redutora do tratamento de doenças e doentes, base dos cuidados de Saúde, por vezes excessivamente medicalizados. Tratamos doentes, é evidente, mas tentamos fazer mais. Tentamos cuidar das pessoas que as «malhas» da nossa Rede acolhem, das suas famílias, reabilitando-as, promovendo o seu bem-estar, a sua vontade de viver, respondendo às suas dificuldades de ordem social, apoiando-as nos momentos de maior fragilidade psicológica. Através dos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, terapeutas da fala, assistentes sociais, psicólogos, dietistas, auxiliares de acção médica, administrativos, voluntários e outros, temos uma única missão: dar o melhor de nós para conseguir oferecer, a cada um dos homens e mulheres que necessitam dos nossos cuidados, a melhor resposta possível. O dever cumpre-se e a felicidade possível obtém-se quando o nosso doente regressa ao seu domicilio, e ao seio da sua família, com ou sem necessidade de apoio domiciliário. Mas o dever e a felicidade também podem estar presentes quando conseguimos responder a uma situação social grave, ou mesmo quando conseguimos dar aos nossos doentes terminais a paz, a dignidade e a ausência de sofrimento que merecem.

Nestas alturas de balanço, é fundamental olhar para trás. Porque queremos hoje mais, como queríamos há dois anos, esquecemos por vezes o difícil caminho que já percorremos. Aqui e ali, ainda subsistem dificuldades pontuais de relacionamento, ainda persistem algumas resistências, ainda resta alguma ignorância das regras e dos limites da RNCCI. Para compreender a evolução da Rede, convém afirmar que começamos por nos colocar em dois lados da «barricada». Durante os primeiros tempos, perdemos algum tempo a olhar para os próprios umbigos, a exigir competências e a descartar responsabilidades.
Esperam-nos novos desafios, novas dificuldades, novas divergências a serem dirimidas.
Esperam-nos (e esperam de nós) mais camas de internamento, mais e melhor apoio domiciliário, o nascimento das Unidades de Dia, o incremento das Unidades de Cuidados Paliativos, a criação de Unidades específicas (nos Acidentes Vasculares Cerebrais, na Saúde Mental ou na doença de Alzheimer).
Podemos contar com prestadores exigentes e em busca constante da melhoria técnica e humana, de que foram um bom exemplo as recentes Jornadas de Cuidados Continuados das Misericórdias Portuguesas.
Fruto de várias vontades e do empenho de todos, a nossa Rede vai continuar a crescer. Como vai crescer a cumplicidade entre todos nós. É que, como há dois anos, boa parte dos cúmplices deste ambicioso desígnio continuam a querer mais.

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