O Dever do PSD

manuela

Publicado na Revista Algarve Mais Foto RTP

São os governos que perdem as eleições e não as oposições que as ganham. Esta é uma frase feita, habitualmente aceite como traduzindo uma verdade quase absoluta.

As últimas décadas em Portugal parecem dar razão aquela afirmação. A desagregação da AD após a morte de Francisco Sá Carneiro, o fim anunciado à nascença do Bloco Central, o tabu de Aníbal Cavaco Silva, o pântano de António Guterres ou o abandono de Durão Barroso influenciaram mais a alternância no poder do que o trabalho das oposições.

Olhando aqueles exemplos em retrospectiva e o comportamento recente do PSD, fica-nos a ideia que a conduta e muitas das escolhas deste Partido são condicionadas pela “esperança” de que, mais cedo ou mais tarde, o PS lhe entregue o poder. Ao alimentar esta expectativa, o PSD tem abdicado de ser Oposição. Com líderes melhor ou pior aceites pela Comunicação Social, com discursos de variável intensidade, com propostas por vezes contraditórias, o PSD optou (e por vezes até parece que de forma consciente) pelo tacticismo em contraponto à estratégia.

A arrogância de José Sócrates, de Santos Silva ou da Ministra da Educação só acontecem e florescem pelo vazio que tem existido à direita do PS. Por isso Santos Silva gosta tanto de malhar à esquerda e à direita, mas com mais gozo à esquerda. É daí, dessa esquerda do PCP, do Bloco e de Manuel Alegre que lhe têm vindo os maiores dissabores. É para esses que o PS receia perder votos e perder a maioria absoluta.

O PSD tem que fazer mais e muito melhor se quiser voltar a ser Governo. A questão fundamental que o PSD, os seus dirigentes e militantes têm que entender é que é deles o dever de ambicionar ganhar as eleições e ser Governo. Não porque é um partido de poder, não porque tem clientelas a satisfazer, não pelo valor absoluto da alternância democrática. Independentemente de ganhar ou não as próximas eleições, tem que querer ganhá-las e tem que convencer os portugueses de que tem essa vontade e de que sabe o que quer para lá chegar e quando lá chegar. Os eleitores esperam, exigem, do PSD essa vontade. O eleitorado central, o que decide, tem que ver no PSD uma verdadeira alternativa nas ideias, nas propostas, nos protagonistas.

Aqueles que no PSD esperam que o voto de protesto lhes caia no colo desenganem-se. Se não assumirem o seu dever de se constituir como alternativa credível, esses votos irão para outros lados e, antes de mais, para a abstenção. Quando a própria qualidade da Democracia está em causa, estes sentidos de Dever e de Responsabilidade têm que estar presentes nos dirigentes e nos militantes de base. Basta de questiúnculas internas e de constante ziguezaguear ideológico e programático. Chega de frios calculismos de olhos postos nos anos vindouros.

Paulatinamente, Manuela Ferreira Leite tem vindo a fazer o seu caminho. Chegados ao mês de Abril, não há qualquer desculpa, qualquer pretexto, para que o caminho de Ferreira Leite não seja o caminho de todos os social-democratas. O tempo das escolhas internas já passou. Agora é tempo de discutir as vitórias com José Sócrates e o PS, e não com Pedro Passos Coelho, Alberto João Jardim ou Luís Filipe Menezes. Aliás, são estes e outros nomes importantes dentro do PSD que têm que dar o exemplo a todos os que se filiaram no Partido. O Dever e a Responsabilidade também passa por eles.

Acredito que é possível dar aos Portugueses que votam ao centro uma alternativa, a possibilidade de escolha entre o PS e o PSD. Acredito que Manuela Ferreira Leite personaliza essa possibilidade e que o PSD tem vindo a fazer o trabalho de casa indispensável para concretizar no Programa Eleitoral uma visão diferente para Portugal.

Um dos primeiros sinais animadores tem sido a qualidade do Fórum Portugal de Verdade. Menos mediático que algumas iniciativas partidárias de abertura à Sociedade Civil no passado mas, talvez por isso, mais consistente. Dois exemplos: na sessão dedicada ao Desemprego estiveram presentes, entre outros, Belmiro de Azevedo, o Padre Lino Maia e Daniel Bessa; a sessão dedicada à Saúde contou com Caldas de Almeida, Isabel Vaz ou Manuel Antunes. Em todas as sessões, os intervenientes não são homens ou mulheres do aparelho, mas antes gente que fala do que faz e que conhece bem o tecido em que se move. Outro aspecto muito positivo, a divergência e a diferença de opinião de algumas dessas personalidades relativamente a algumas posições “oficiais” do PSD tem sido acolhida como um contributo para a sua revisão.

O Programa do PSD, na sua essência, ainda é um dos seus documentos ideológicos mais importantes. Precisa porém de se adequar à realidade, trabalho que a liderança de Marques Mendes iniciou. Para isso é preciso querer e saber ouvir. Militantes e independentes. É preciso manter as convicções reformistas, as influências da social-democracia europeia mas também uma visão mais liberal do Estado. Saber cuidar das raízes herdadas da Ala Liberal, do nascimento do PPD, da força da AD ou do tempo de Governo de Cavaco Silva, integrando novas ideias decorrentes da globalização e do conhecimento e rápida evolução.

Os eleitores têm que saber como se posiciona ideologicamente o PSD face às grandes questões globais, da energia à preservação do planeta, do sistema financeiro às questões humanitárias. Mas principalmente, e esse é o desafio para os próximos meses, têm que saber qual o sistema de saúde preconizado, totalmente público, em parceria com o sector privado, com um peso crescente do sector social, com ou sem taxas moderadoras? Têm que saber como pensa o PSD combater o aumento da criminalidade, com mais efectivos, com medidas de vigilância electrónica e vídeo, com ou sem alterações à politica de imigração? Que regime de Segurança Social? Que politica de investimentos? Como melhorar a Justiça e devolver a credibilidade às suas instituições? Que plano de combate à corrupção?

Este é o desafio, este é o Dever do PSD.

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