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Ensino e Emprego Médico
Publicado em Janeiro 355, 2010 Sem comentários
Publicado na edição de Janeiro de 2010 da Revista Algarve Mais
Dezembro trouxe no sapatinho à Universidade de Aveiro um Curso de Medicina. Tal “prenda”, antecedida do início do Curso da Universidade do Algarve deu origem a diversas reacções, concordantes e discordantes, com bastante eco na Comunicação Social.
De todas as vozes que se ouviram, foi certamente a do Bastonário da Ordem dos Médicos a mais controversa. A sua opinião de que há que acautelar a qualidade do ensino e o desemprego médico no futuro é indubitavelmente polémica. Entendo que esta qualificação das suas palavras advém, antes de mais, do facto de que ao Bastonário não bastou ser politicamente correcto e ir ao sabor da corrente. Correndo o risco de ser atacado, como foi, o Dr. Pedro Nunes optou por dizer abertamente a sua opinião, preocupando-se mais com o conteúdo da mensagem que com a sua imagem. Num pais e num tempo em que cada vez mais gente diz o que os outros querem ouvir e não aquilo que realmente pensa, louve-se quem ousa dizer em voz alta o que lhe passa na mente.
Nesta questão dois factos são indiscutíveis: estamos perante uma carência efectiva de médicos, sendo que este primeiro facto decorre de uma politica demasiado restritiva no que se refere ao acesso aos Cursos de Medicina.
Tendo razão aqueles que afirmam que o problema reside na deficiente distribuição geográfica dos médicos, tal explicação não chega. Se consultarmos os rácios de médicos nas diferentes regiões do pais e analisarmos ainda a sua distribuição pelas diversas especialidades são notórias as desigualdades que importa corrigir. Efectivamente nunca se enfrentou de frente esta questão. É inevitável criar quotas, mas também incentivos, que levem os médicos a optar por exercer a sua profissão em regiões mais carenciadas, bem como levar os jovens médicos a optar, aquando da escolha da área de especialização, por especialidades médicos onde se fazem sentir particularmente as carências actuais e o aproximar da idade da reforma de muitos dos profissionais actualmente a exercer.
Mas além das medidas que visem redistribuir melhor os recursos humanos existentes, é fundamental aumentar o seu número principalmente porque as “fornadas” de médicos licenciados em grande número nos anos 70, após o 25 de Abril, estão a atingir a idade da reforma e, antes ainda, a idade que os dispensa de fazer serviço de urgência nocturna. É portanto necessário corrigir o erro de “estreitar” em demasia a entrada nas Faculdades de Medicina, erro que conduziu à situação actual e que, para lá destes efeitos “numéricos”, teve ainda o enorme defeito de afastar do exercício da Medicina excelentes alunos, com competências humanas e técnicas, mas que simplesmente eram “apenas” excelentes e não “excelentíssimos”. Para estes restou a hipótese de fazer os seus estudos em Espanha, na República Checa ou noutra Faculdade no estrangeiro. Restou para aqueles que tinham as condições pessoais, familiares, financeiras e outras que lhes permitissem passar meia dúzia de anos da sua vida emigrados.
Por todas estas razões é hoje consensual o aumento do número de vagas nos Cursos de Medicina. Mas sem dúvida o Bastonário da Ordem dos Médicos teve a ousadia de questionar o modo. E concorde-se ou discorde-se da sua posição, esta tem o mérito de permitir a todos os que se interessam por estas questões o debate sobre os meios e não apenas sobre o finalidade de aumento dos quadros médicos a médio prazo.
Importa pensar sobre o modelo de ensino. O aumento do número de vagas deve ser atingido através das Faculdades de Medicina e modelo de ensino “clássico” ou através do aumento do número de cursos, destinados não aos alunos que completam o 12º ano mas a licenciados em áreas contíguas “escolhidos” através de outros métodos que não apenas os tradicionais exames? Os méritos das “velhas escolas” ainda suplantam as suas tradicionais debilidades? A modernidade dos novos cursos supera as esperadas fragilidades? Mais importante que ter uma opinião definitiva, dogmática, é manter a mente aberta para ouvir e discutir diferentes formas de formar médicos, saber como adequá-las às necessidades regionais e nacionais e previligiar a qualidade acima das ideias feitas do que deve ser o ensino médico. Falta da parte do Governo a autorização para abertura de uma Licenciatura através do sector Privado. Nos tempos que correm, no pais europeu e moderno que pretendemos ser, com a opção pelo Estado social que aceita e estimula as parcerias com o sector privado, não faz sentido continuar a impedir a Universidade Católica, por exemplo e porque a sua qualidade não necessita de demonstração, de acrescentar às suas respostas um curso de Medicina.
Mas cuidado com os números… Tem razão o Dr. Pedro Nunes quando alerta para o desemprego médico. E pense-se um pouco quando se critica esta posição com base no “lobby”. Se abrirmos vagas em demasia, se daqui a dez ou quinze anos houver um excesso de médicos, aqueles que hoje constituem o chamado “lobby” estarão na reforma. O Dr. Pedro Nunes, como a esmagadora maioria dos dirigentes da Ordem, dos Directores Clínicos, Directores de Centros de Saúde, os actuais “barões” da Medicina Privada estarão a terminar, ou terão já terminado a sua carreira. Não é um aviso “interesseiro” mas antes um alerta desinteressado na protecção do futuro.
Olhem com atenção para o nascimento quase espontâneo de cursos de enfermagem, fisioterapia, direito, psicologia, gestão, etc.. E atentem no resultado, milhares de jovens licenciados desempregados, aumento do trabalho precário, degradação do estatuto remuneratório e das condições de trabalho. Perguntem aos bons psicólogos, enfermeiros ou fisioterapeutas sem emprego ou a trabalhar em condições pouco dignas se não gostariam que alguns anos atrás alguém tivesse alertado para o futuro que lhes estava a ser criado.
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Portugal: a novela
Publicado em Janeiro 345, 2010 Sem comentários
Publicado na edição de Dezembro da Revista Algarve Mais
Durante anos, foi moda falar-se do «país real» em contraponto ao país da política, de Lisboa e Porto, da vida supostamente fácil. No «país real», localizado preferencialmente no interior ou na periferia das grandes cidades, viviam os que tinham dificuldades, os que ainda viviam da agricultura, os que tinham problemático acesso à justiça, à saúde, ao emprego. Nesse «país real», de existência tão conveniente para alguns políticos em campanha, as gentes tinham problemas mas eram mais honestas e honradas que os outros, tinham costumes mais genuínos e representavam o verdadeiro Portugal. Convenhamos que era uma visão herdada do Portugal de Salazar, dos portugueses pobres mas honrados, cuja política era o trabalho, que preferiam estar orgulhosamente sós. Com o tempo, o termo foi caindo em desuso. Outros clichés tomaram o seu lugar, para gáudio dos humoristas sempre ávidos de novos bordões para as suas sátiras. Pior, desapareceu o termo mas também está a desaparecer o verdadeiro país real. Nas intervenções dos responsáveis e na comunicação social sobra a ficção e a novela, onde falta a informação e a análise.
Os telejornais mais se assemelham a episódios de telenovela, com todos os ingredientes próprios. Bons contra maus, traições, espionagem, campanhas negras, famílias desavindas, relações perigosas. Os próprios telejornais, jornais e jornalistas são personagens das novelas por eles relatadas.
Há muitos episódios atrás, dizia-se que o Aníbal tinha renegado a família, prometendo ajudar o José em tudo o que este precisasse. Sendo o José o maior inimigo da família do Aníbal, aquela cooperação resultava em óbvio prejuízo desta. Mas, quando Manuela assumiu o papel de matriarca da família, coincidência ou não, a relação entre Aníbal e José esfriou. Esfriou de tal modo que José acusou Aníbal de, às escondidas, estar a ajudar Manuela a preparar a sua queda. Furioso, Aníbal descobre que José o anda a espiar mas, para desespero de Manuela, decide calar-se, o que acaba por contribuir para o desabar dos planos de Manuela. Com esta de partida, Aníbal e José decidem passar uma esponja no passado e voltam a jurar cooperação eterna.
Mas nem tudo é um mar de rosas para José. Perseguido ainda pelo fantasma de Alcochete, tarda em livrar-se das suspeitas que o envolvem, vivendo num denso ambiente que jura tratar-se de uma campanha negra orquestrada pelos seus inimigos, com a colaboração inocente de tios e primos. Aos mais íntimos confessa que o seu maior inimigo é o casal Moniz. Nunca o confessa, mas quase todos acreditam que foi José que mandou encerrar as portas da tertúlia de sexta que os Moniz realizavam e onde José era zurzido com frequência. Afirmando-se desconhecedor, e até descontente com o destino dos Moniz, José é alvo de novo golpe de espionagem que parece vir desmenti-lo uma vez mais. Não é que o seu parente Armando, envolvido ao que consta nuns negócios de sucata, tem o telefone sob escuta e terá sido apanhado a combinar com José a forma de se verem livres dos Moniz? Mas eis que, em nova reviravolta, tão normal nestas novelas, Nascimento e Pinto, senhores das escutas, decidem que estas não são importantes e mandam destrui-las, deixando todos em suspenso. Serão as escutas destruídas? Será que Nascimento e Pinto têm razão e tudo não passa de um golpe de baixa espionagem contra José ou, pelo contrário, têm razão os que afirmam que deviam ser tornadas públicas as escutas? Dúvidas que os próximos capítulos não vão, seguramente, esclarecer.No outro clã, entretanto, Manuela derrotada cai em desgraça e Pedro, que nunca gostou dela, quer desesperadamente ocupar o seu lugar. Marcelo, por seu lado, quer mandar mas quer que pareça que não quer, preferindo que outros digam que o querem, de preferência em uníssono. Porém, ao reparar que só alguns, e não todos, chamam por si, em particular alguns de quem não gosta e que, na verdade, não gostam de si, faz saber que agora é que não quer mesmo. Mas, como a história se repete, é quase certo que, à semelhança do passado, iremos assistir a nova descida de Cristo à terra. Quem não parece pelos ajustes são os primos do Porto. O Rui não quer vir para Lisboa e também não quer que o Luís volte, aproveitando Marco para dizer que, se ninguém vai, vai ele. O episódio não acaba sem que, na Madeira, Alberto diga que estão todos loucos.
Deslumbrados com tão colorida novela em que o país se transformou, quem quer perder um episódio para se preocupar com o número recorde de desempregados, com o déficit das contas públicas que aumenta a cada previsão efectuada, com o terceiro orçamento rectificativo, com a gritante falha de estratégia de comunicação quanto à Gripe A, nomeadamente quanto aos benefícios e desvantagens da vacinação.
Quem quer ouvir o Primeiro-Ministro ou a líder da oposição, quando pode acompanhar as estórias do José e da Manuela? Quem quer ainda saber do país real que está transformado num estúdio de novela? -
Uma campanha feliz
Publicado em Janeiro 334, 2010 Sem comentários.jpg)
Publicado na edição de Novembro da Revista Algarve Mais
Contra (quase) todos os prognósticos, tenho um novo Presidente. Já escrevi e disse sobre o Rui André tudo o que a razão e a amizade ditaram, e acredito profundamente que Monchique não se arrependerá da escolha que fez. No sábado, dia de reflexão, tive a certeza de ter tomado a decisão certa quando decidi “regressar a casa”. O Rui e a sua equipa, mescla de juventude e experiência, os históricos do PPD Monchique e os independentes que se juntaram aquele desafio, os Monchiquenses que nos apoiaram activamente mas também os Amigos que estiveram noutro lado desta disputa, todos contribuíram para reforçar nesse Sábado a firme intenção de dar mais a Monchique. Quer, no final da noite de Domingo, o Presidente se chamasse Rui André ou Carlos Tuta, nesse dia de reflexão era seguro que a minha vida tinha mudado.
Passados mais de 25 anos de militância partidária e múltiplas campanhas, poucas vezes me terei emocionado e divertido tanto numa candidatura. Raramente uma vitória me fez crer tanto na mudança e num futuro melhor para os destinatários da campanha eleitoral. Nunca os abraços significaram tanto, neste mundo muito peculiar da Política. Poucas vezes ouvi um discurso de vitória como o do Rui André: feliz, sereno, determinado, tolerante e motivador. Sem excessos, sem triunfalismos exagerados, sem radicalismos, Rui André tornou-se logo no Domingo, dia 11, o Presidente de todos os Monchiquenses.
A vitória foi saborosa e o futuro é feito de esperança e de muito trabalho. Sabedores da enorme responsabilidade que a vitória acarretava e da importância de uma campanha séria, responsável e empenhada, quero sublinhar que foram também meses (e em particular as últimas semanas) de alegria e permanente boa disposição.
Fazer campanha em Monchique, porta a porta, é também um teste de resistência aos excessos gastronómicos. Desenganaram-se os que pensavam que se tratava apenas de “distribuir papéis”. Entregar um programa eleitoral era desafiar o interlocutor a que este nos abrisse as portas da sua casa… Pão com torresmo, sandes de presunto, um pouco de chouriço e morcela (que o diga o Professor Marcelo Rebelo de Sousa…), acompanhados de um cálice de medronho ou melosa eram o pão-nosso de cada dia. As gentes da minha terra sabem mesmo como tratar as visitas. E como é fabuloso haver sítios onde ainda recebem os “políticos” como visitas. Até parece um contra-senso nos dias que correm, ao mesmo tempo, fazer política e fazer amigos. Confesso que houve dias mais complicados para o estômago; salvava-nos o forte espírito de grupo que nos levava a encontrar substitutos à altura sem perder o ritmo, nem a “coesão estratégica”.
A maior surpresa da campanha estava, no entanto, reservada para a última noite. Durante semanas sentíamos a gritante desigualdade de meios. Nos “brindes”, nos cartazes, na “profissionalização” da campanha, nos carros de som, nos jantares, nos artistas convidados, o Partido Socialista deu uma valente tareia ao PSD. Não que tal fosse preocupante, do meu ponto de vista. Embora “atrapalhasse”, sempre acreditei que essa parafernália de meios não iria impedir a divulgação das ideias e dos candidatos do PSD, nem perturbar o juízo da maioria dos eleitores. Dito isto, aquela última noite foi, mesmo assim, uma enorme surpresa.
“Comício” marcado para sexta-feira à noite, em Marmelete. Freguesia eminentemente rural, envelhecida como todo o concelho, exemplo de interioridade e de afastamento dos centros de decisão. À medida que a hora se aproximava chegava mais e mais gente. De todas as idades. Para oferecer tínhamos “apenas” as nossas intervenções e esclarecimentos. Nem repasto, nem convidados musicais, nem brindes. Só Política. Só os candidatos aos órgãos autárquicos a enunciar os seus princípios e as suas propostas. Sexta-feira à noite, em Marmelete, cerca de 200 pessoas, a ouvir atentamente, a fazer acenos de concordância ou de discordância, livremente. A chegar ao fim de quase uma hora ainda com vontade para nos abordar, questionar e manifestar o seu apoio ou as suas dúvidas quanto às nossas possibilidades, olhos nos olhos. Para quem, e confesso que por vezes me acontece, descrê da Democracia participativa e do exercício da cidadania, as gentes de Marmelete não poderiam dar melhor exemplo de que a descrença também se combate.
Que distância entre as gentes de Marmelete e algumas figuras e empresários da região que apareceram nas fotos dos jornais regionais na pré-campanha, capacetes em riste a “oferecer” as suas obras e as suas imagens aos candidatos do poder, embora tivesse a sua piada ver que, a alguns, o calculismo resultou num tiro pela culatra.
É diante das gentes de Marmelete, e de todos os Monchiquenses, que o Presidente Rui André estará daqui a 4 anos para prestar contas. E se bem o conheço, que bom será passar este tempo a apoiá-lo e à sua equipa.



Ao longo dos anos fui publicando, em Jornais e Revistas, crónicas sobre os assuntos que, a cada momento, achava oportuno. Na blogosfera, em reuniões de carácter diverso ou através de breves notas divulguei também posições e opiniões que são parte da minha história. Voltam agora à Net, espero que acompanhadas de escritos mais recentes.
