Cartas de Alcalar
Crónicas e outros textos. Saúde, Política, Algarve, Vida.
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Portugal: a novela
Publicado em Janeiro 345, 2010 Sem comentários
Publicado na edição de Dezembro da Revista Algarve Mais
Durante anos, foi moda falar-se do «país real» em contraponto ao país da política, de Lisboa e Porto, da vida supostamente fácil. No «país real», localizado preferencialmente no interior ou na periferia das grandes cidades, viviam os que tinham dificuldades, os que ainda viviam da agricultura, os que tinham problemático acesso à justiça, à saúde, ao emprego. Nesse «país real», de existência tão conveniente para alguns políticos em campanha, as gentes tinham problemas mas eram mais honestas e honradas que os outros, tinham costumes mais genuínos e representavam o verdadeiro Portugal. Convenhamos que era uma visão herdada do Portugal de Salazar, dos portugueses pobres mas honrados, cuja política era o trabalho, que preferiam estar orgulhosamente sós. Com o tempo, o termo foi caindo em desuso. Outros clichés tomaram o seu lugar, para gáudio dos humoristas sempre ávidos de novos bordões para as suas sátiras. Pior, desapareceu o termo mas também está a desaparecer o verdadeiro país real. Nas intervenções dos responsáveis e na comunicação social sobra a ficção e a novela, onde falta a informação e a análise.
Os telejornais mais se assemelham a episódios de telenovela, com todos os ingredientes próprios. Bons contra maus, traições, espionagem, campanhas negras, famílias desavindas, relações perigosas. Os próprios telejornais, jornais e jornalistas são personagens das novelas por eles relatadas.
Há muitos episódios atrás, dizia-se que o Aníbal tinha renegado a família, prometendo ajudar o José em tudo o que este precisasse. Sendo o José o maior inimigo da família do Aníbal, aquela cooperação resultava em óbvio prejuízo desta. Mas, quando Manuela assumiu o papel de matriarca da família, coincidência ou não, a relação entre Aníbal e José esfriou. Esfriou de tal modo que José acusou Aníbal de, às escondidas, estar a ajudar Manuela a preparar a sua queda. Furioso, Aníbal descobre que José o anda a espiar mas, para desespero de Manuela, decide calar-se, o que acaba por contribuir para o desabar dos planos de Manuela. Com esta de partida, Aníbal e José decidem passar uma esponja no passado e voltam a jurar cooperação eterna.
Mas nem tudo é um mar de rosas para José. Perseguido ainda pelo fantasma de Alcochete, tarda em livrar-se das suspeitas que o envolvem, vivendo num denso ambiente que jura tratar-se de uma campanha negra orquestrada pelos seus inimigos, com a colaboração inocente de tios e primos. Aos mais íntimos confessa que o seu maior inimigo é o casal Moniz. Nunca o confessa, mas quase todos acreditam que foi José que mandou encerrar as portas da tertúlia de sexta que os Moniz realizavam e onde José era zurzido com frequência. Afirmando-se desconhecedor, e até descontente com o destino dos Moniz, José é alvo de novo golpe de espionagem que parece vir desmenti-lo uma vez mais. Não é que o seu parente Armando, envolvido ao que consta nuns negócios de sucata, tem o telefone sob escuta e terá sido apanhado a combinar com José a forma de se verem livres dos Moniz? Mas eis que, em nova reviravolta, tão normal nestas novelas, Nascimento e Pinto, senhores das escutas, decidem que estas não são importantes e mandam destrui-las, deixando todos em suspenso. Serão as escutas destruídas? Será que Nascimento e Pinto têm razão e tudo não passa de um golpe de baixa espionagem contra José ou, pelo contrário, têm razão os que afirmam que deviam ser tornadas públicas as escutas? Dúvidas que os próximos capítulos não vão, seguramente, esclarecer.No outro clã, entretanto, Manuela derrotada cai em desgraça e Pedro, que nunca gostou dela, quer desesperadamente ocupar o seu lugar. Marcelo, por seu lado, quer mandar mas quer que pareça que não quer, preferindo que outros digam que o querem, de preferência em uníssono. Porém, ao reparar que só alguns, e não todos, chamam por si, em particular alguns de quem não gosta e que, na verdade, não gostam de si, faz saber que agora é que não quer mesmo. Mas, como a história se repete, é quase certo que, à semelhança do passado, iremos assistir a nova descida de Cristo à terra. Quem não parece pelos ajustes são os primos do Porto. O Rui não quer vir para Lisboa e também não quer que o Luís volte, aproveitando Marco para dizer que, se ninguém vai, vai ele. O episódio não acaba sem que, na Madeira, Alberto diga que estão todos loucos.
Deslumbrados com tão colorida novela em que o país se transformou, quem quer perder um episódio para se preocupar com o número recorde de desempregados, com o déficit das contas públicas que aumenta a cada previsão efectuada, com o terceiro orçamento rectificativo, com a gritante falha de estratégia de comunicação quanto à Gripe A, nomeadamente quanto aos benefícios e desvantagens da vacinação.
Quem quer ouvir o Primeiro-Ministro ou a líder da oposição, quando pode acompanhar as estórias do José e da Manuela? Quem quer ainda saber do país real que está transformado num estúdio de novela?Deixar uma resposta



Ao longo dos anos fui publicando, em Jornais e Revistas, crónicas sobre os assuntos que, a cada momento, achava oportuno. Na blogosfera, em reuniões de carácter diverso ou através de breves notas divulguei também posições e opiniões que são parte da minha história. Voltam agora à Net, espero que acompanhadas de escritos mais recentes.
